Profissionais de sa├║de se mobilizam para atender casos de dengue no Distrito Federal

Em meio ao avanço da dengue no Distrito Federal – uma das unidades federativas mais afetadas pela doença –, profissionais da saúde se veem novamente mobilizados para, a exemplo do ocorrido durante a pandemia, unir esforços e enfrentar mais um desafio.

Por Regional 24 Horas em 03/03/2024 às 16:30:21


A supervisora estima que, atualmente, dos cerca de 350 atendimentos di├írios, entre 100 e 150 t├¬m sido de pacientes com suspeitas de dengue. Destes, cerca de 70 casos são confirmados.

"A verdade é que a situação é sempre caótica, mas em maior ou menor intensidade", disse a supervisora à Ag├¬ncia Brasil.

Segundo ela, apesar de "caótica", a dedicação da equipe e "a expertise adquirida durante a covid-19" t├¬m ajudado a encarar novos desafios profissionais.

Se comparados com a época da pandemia, os atuais desafios podem até parecer pequenos.

Mas não são, uma vez que, no caso da dengue, os procedimentos tendem a ser mais complicados do que os adotados nas rotinas das unidades de sa├║de. Além disso, os sintomas – e os acompanhamentos – tendem a durar mais dias.

"Notamos que este ano a dengue est├í mais exacerbada [prolongada], com os pacientes apresentando sintomas mais arrastados. Antes, eles apresentavam melhoras em tr├¬s ou quatro dias. Agora levam de sete a dez dias. Além do n├║mero maior de pacientes, observamos a necessidade maior de retorno deles à unidade, o que acaba por nos deixar sobrecarregados", acrescentou.

Colapso

No final de janeiro, diante do aumento do número de casos de dengue, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, decretou emergência na saúde do DF. Mais recentemente, disse que a rede de saúde entrou em colapso.

Para a diretora do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnfermeiro-DF), Nayara Jéssica, não é de hoje que a situação das unidades de atendimento de sa├║de é de colapso. "O colapso apenas est├í maior", avalia a enfermeira ao afirmar que, por tratar-se de uma epidemia "mais do que prevista", muitos problemas poderiam ter sido evitados pelo governo do DF.

"O GDF poderia ter se programado porque foi uma epidemia anunciada. A começar pelo déficit que temos em termos de pessoal na rede p├║blica. Isso est├í impactando significativamente", disse a diretora.

A forma como as autoridades locais t├¬m organizado seus recursos humanos foi criticada pela diretora do SindEnfermeiro. "Após todo o aprendizado que tivemos com o ac├║mulo de demandas ocorrido durante a pandemia, est├ívamos nos reorganizando, quando fomos assolados por essa epidemia de dengue e pela forma meio atropelada como o governo est├í conduzindo a questão", disse Nayara.

Segundo a representante dos enfermeiros, as tendas montadas deveriam prestar um primeiro atendimento, enquanto o acompanhamento ficaria a cargo das UBS.

"O problema é que não h├í funcion├írios suficientes nas tendas. Então estão retirando profissionais das UBS para fazerem esse atendimento. Ou seja, estão basicamente trocando a problem├ítica de lugar. E, ao fazerem esse deslocamento, estão comprometendo outros serviços nas unidades em um per├şodo no qual aumentam as incid├¬ncias de doenças respiratórias."

A associação de dengue com doenças respiratórias pode, inclusive, atingir a mesma pessoa. Foi o caso de Isabella Cardoso, de 9 anos, filha da servidora Glaucilene Cardoso, de 44. "Por sorte, o caso da minha filha não foi grave, nem para a dengue nem para a covid. Mas, claro, a gente fica sempre preocupada."

Isabella foi levada à tenda de atendimento montada na Ceilândia e, na sequ├¬ncia, foi diagnosticada e encaminhada para a UBS 7.

"Foram seis dias de tosse, febre e dores nos olhos e no corpo", descreveu Glaucilene ao citar a mistura de sintomas das duas doenças, observada na filha, em meio a elogios à dedicação das equipes de sa├║de. "Sempre prestam bom serviço por aqui", acrescentou.

Chuva e sol

Isabella e sua mãe deram sorte. Não é todo dia que é poss├şvel prestar o atendimento de excel├¬ncia citado por Glaucilene. O técnico em enfermagem Gustavo Lopes explica o motivo: "Os casos de dengue variam de acordo com o clima. Hoje a movimentação est├í menor porque chovia até ontem. Geralmente o n├║mero de casos aumenta significativamente após dois ou tr├¬s dias de sol", disse ele, na ├║ltima segunda-feira (25), enquanto atendia a advogada Juliana Oliveira, 41, moradora de Taguatinga.

"H├í duas semanas a situação era outra, com uma movimentação muito maior. Agora est├í até tranquilo, mas sabemos que isso é momentâneo e que, de uma hora para outra, vão aparecer, de uma vez, muitas pessoas com suspeitas de estarem com dengue", acrescentou a enfermeira Kelma Louzeiro, gerente de uma UBS, deslocada para ajudar no atendimento aos pacientes em uma das tendas voltadas ao atendimento de pessoas com suspeitas de dengue.

Bastante abatida, após passar a noite sem conseguir dormir em meio a n├íuseas, vômitos e muita dor nos olhos e na cabeça, Juliana Oliveira não estava com dengue, apesar de apresentar os mesmos sintomas. "O exame deu negativo. A suspeita é que eu esteja com zika", disse a advogada.

"Por via das d├║vidas j├í estamos fazendo o tratamento, uma vez que o protocolo das duas doenças é praticamente o mesmo", complementou o técnico Gustavo Lopes.

Da triagem, na chegada, até o in├şcio do tratamento, passando pelos 20 minutos necess├írios para se obter o resultado do teste r├ípido, foi necess├írio pouco mais de uma hora para Juliana começar a ser hidratada. "Foi bem r├ípido", disse a advogada.

"R├ípido e eficiente" foram os termos usados pelo publicit├írio Mauro J├║nior Medeiros, de 23 anos, para se referir ao atendimento que recebeu tanto na tenda quanto na UBS da Ceilândia. "Fiz o exame e até recebi remédios. Agora, aguardo os resultados para ver se ser├í necess├írio fazer um ajuste na dosagem", disse.

Se tivesse buscado atendimento outro dia na unidade, Mauro correria o risco de não ter à disposição soro para hidratação.

"A demanda por soro para hidratação tem sido muito grande, e a quantidade, às vezes, é insuficiente, chegando a faltar em algumas UBS. Mas a expectativa, em geral, é que não se leve mais do que 48 horas para recebermos mais", disse a supervisora Kelma Louzeiro.

De acordo com a diretora do SindEnfermeiro-DF, o restabelecimento de estoques de hidratação oral e de soro fisiológico ficou mais f├ícil após o governo do DF ter decretado emerg├¬ncia em sa├║de. "As compras foram facilitadas e, em geral, é até r├ípido o envio às unidades", disse Nayara Jéssica ao reiterar que as dificuldades maiores decorrem do déficit de pessoal.

Paranoá

Do outro lado de Bras├şlia, na UBS 1, do Parano├í – outra região administrativa da capital federal –, a dona de casa Isabel Martins, de 66 anos, aguardava o resultado do exame para saber se a diarreia, a tontura e as dores que sentia na cabeça e no corpo eram sintomas de dengue.

Isabel disse que conhece bem a situação das unidades de sa├║de do Parano├í, e que, entre elas, a que oferece atendimento mais r├ípido para os pacientes é a UBS 1, motivo pelo qual ela foi direto para l├í.

"Assim que cheguei, informei que minha situação estava ruim e fui imediatamente atendida. A equipe aqui é sempre muito boa, mas nem todas as unidades são assim. Se for para ir para a UPA [Unidade de Pronto Atendimento] ou para o hospital, a coisa é mais complicada", disse a dona de casa referindo-se às unidades para onde os casos mais graves são enviados.

A poucos quilômetros dali, cerca de 60 pessoas aguardavam, por horas, atendimento na UPA do Parano├í. Entre elas, Janu├írio da Cruz Silva, de 61 anos. Ele trabalha com um caminhão de mudanças, mas h├í quase uma semana teve de parar com os serviços por conta da dengue.

"Fui s├íbado ao posto de sa├║de, fiz hemograma e constatei estar com dengue. Fui então encaminhado para o Hospital do Parano├í. Fiquei quase cinco horas l├í, mas acabei não sendo atendido porque, como praticamente não havia médicos, eles só atendiam quem tinha pulseira vermelha de emerg├¬ncia", disse Janu├írio à Ag├¬ncia Brasil.

Desde então, ele est├í intercalando paracetamol e dipirona, na tentativa de amenizar as dores. "Estou h├í tr├¬s noites sem dormir por causa dessa dor. Vim então para c├í na expectativa de receber hidratação na veia."

O sofrimento do cozinheiro José Souza Ara├║jo, de 67 anos, j├í durava oito dias. Ele também estava na UPA do Parano├í para tentar entender o motivo de tamanha demora para se recuperar. "Vim aqui na segunda-feira passada [dia 19], fiquei quase seis horas e não consegui ser atendido. Quem sabe agora eu consiga."

Secretaria de Sa├║de

Procurada pela Ag├¬ncia Brasil, a Secretaria de Sa├║de do Distrito Federal garantiu estar preparada para atender os casos de dengue em todo o território e que, para tanto, conta com 176 UBS – algumas delas funcionando em hor├írios especiais à noite e nos finais de semana.

O governo do DF ampliou também o atendimento nas tendas montadas em nove sedes de administrações regionais e, desde 5 de fevereiro, est├í em funcionamento o Hospital de Campanha da Aeron├íutica, estrutura provisória montada ao lado da UPA da Ceilândia.

A expectativa é a de instalar mais 11 novas tendas de hidratação. Segundo a secretaria, as instalações provisórias podem oferecer tratamento para casos leves, o que inclui hidratação dos pacientes, testagem e orientações sobre como lidar com os sintomas da dengue.

Em caso de agravamento, os pacientes devem ser transferidos para uma das 13 UPAs ou para os hospitais regionais. Para tanto, novos leitos foram disponibilizados: 15 deles, de observação, no Hospital Regional de Asa Norte; 20 em unidades de terapia intensiva da rede privada; e 55 leitos de internação no Hospital da Cidade do Sol.

Com relação aos recursos humanos, a secretaria informou que 715 técnicos de enfermagem, trabalhadores de sete regiões de sa├║de do DF, tiveram a carga hor├íria ampliada de 20 para 40 horas semanais, e que nomeou 180 técnicos de enfermagem, 156 enfermeiros, 115 agentes comunit├írios de sa├║de e 90 médicos especialistas. Foi também aberto um chamamento p├║blico para contratar mais 200 médicos tempor├írios.

Adicionalmente, 38 caminhonetes equipadas com fumac├¬ estão rodando as ruas do DF para aplicação de inseticidas nas ├íreas de maior incid├¬ncia do Aedes aegypti, vetor respons├ível pela transmissão da dengue, chikungunya e zika.

Iniciada no DF em 9 de fevereiro, a campanha de vacinação contra a dengue imunizou até a ├║ltima terça-feira (27 de fevereiro) 23.502 crianças de 10 anos e 11 anos, apenas 32% do p├║blico-alvo.

A população pode acompanhar a disponibilidade de leitos por meio do site da Secretaria de Sa├║de do DF. Foi também disponibilizada uma p├ígina informando os hor├írios de funcionamento das unidades b├ísicas de sa├║de.

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