V√≠rus zika pode voltar a se replicar após recuperação, aponta estudo

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) investigou a reação tardia do vírus da zika e como isso pode levar a novos episódios de sintomas neurológicos da doença, como crises convulsivas.

Por Regional 24 Horas em 23/06/2024 às 13:21:11
Foto: O Globo

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Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) investigou a reação tardia do v√≠rus da zika e como isso pode levar a novos episódios de sintomas neurológicos da doença, como crises convulsivas. Os resultados do estudo inédito estão em um artigo cient√≠fico publicado nesta semana no periódico iScience, do grupo Cell Press.

O estudo foi realizado durante quatro anos com cerca de 200 camundongos que se recuperaram da infecção pelo v√≠rus zika. A pesquisa foi liderada pelas cientistas Julia Clarke, do Instituto de Ci√™ncias Biomédicas, e Claudia Figueiredo, da Faculdade de Farm√°cia, ambas da UFRJ.

Os resultados apontam que em situações de queda na imunidade, como stress, tratamento com medicamentos imunossupressores ou durante infecções por outros v√≠rus, o zika pode voltar a se replicar no cérebro e em outros locais onde antes não era encontrado, como nos test√≠culos.

"Alguns v√≠rus podem "adormecer" em determinados tecidos do corpo e depois "acordar" para se replicar novamente, produzindo novas part√≠culas infecciosas. Isso pode levar a novos episódios de sintomas, como acontece classicamente com os v√≠rus simples da herpes e da varicela-zoster.

Segundo Julia Clarke, essa nova replicação est√° associada à produção de espécies secund√°rias de RNA viral, que são resistentes à degradação e se acumulam nos tecidos.

"A gente observou que, ao voltar a replicar no cérebro, o v√≠rus gera substâncias intermedi√°rias de RNA e a gente v√™ um aumento na predisposição desses animais a apresentarem convulsões, que é um dos sintomas da fase aguda", acrescentou.

Em modelos animais, o grupo da UFRJ e outros aplicaram testes de PCR, microscopia confocal, imunohistoqu√≠mica, an√°lises comportamentais e mostraram que o v√≠rus da zika pode permanecer no corpo por longos per√≠odos, após a fase aguda da infecção. Em humanos, o material genético do v√≠rus da zika j√° foi encontrado em locais como placenta, s√™men, cérebro, mesmo muitos meses após o desaparecimento dos sintomas.

Ela explica que os resultados mostraram que a amplificação do RNA viral e a geração de material genético resistente à degradação pioram os sintomas neurológicos nos animais, principalmente nos machos. Embora a reativação tardia do v√≠rus da zika ainda não tenha sido investigada em humanos, os dados sugerem que pacientes expostos ao v√≠rus, no in√≠cio da vida, devem ser monitorados a longo prazo e que novos sintomas podem ocorrer. Como próximos passos, Julia Clarke explica que se aprofundarão nas calcificações cerebrais provocadas pelo v√≠rus.

"O cérebro exposto ao v√≠rus, tanto de animais quanto de humanos, desenvolve √°reas de lesão caracter√≠sticas com morte de células e ac√ļmulo de c√°lcio - as chamadas calcificações. Nosso grupo pretende caracterizar se essas √°reas de calcificações são os locais onde o v√≠rus permanece adormecido. Além disso, pretendemos testar um medicamento que diminui muito o tamanho dessas √°reas de calcificação para avaliar se consegue prevenir essa reativação do v√≠rus", explica.

Julia Clarke ressalta que a pesquisa é de extrema importância, pois revela a capacidade do v√≠rus persistir e reativar, o que pode ter grandes implicações para a sa√ļde p√ļblica. O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes e do Instituto de Bioqu√≠mica Médica Leopoldo de Meis, ambos da UFRJ, e financiamento de cerca de R$ 1 milhão da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

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